2017 acaba com saldo recorde na balança comercial; importações caem
03/01/2018 - Correio Braziliense
 

 As exportações voltaram a surpreender em 2017 e ajudaram a recuperação da economia após a recessão de 2015 e 2016, que encolheu o Produto Interno Bruto (PIB) em 7%. A balança comercial encerra o ano com o maior superavit da história, de US$ 69 bilhões, pelas projeções do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Boa parte desse saldo positivo, no entanto, é decorrente da queda das importações por conta da atividade econômica ainda fraca, e da exportação de commodities, que são produtos menos elaborados. A partir do ano que vem, a tendência é que o resultado diminua, devido à baixa competitividade do país no cenário internacional.

 

Analistas enumeram amarras do crescimento da economia — burocracia, elevada carga tributária, infraestrutura ineficiente e custosa, baixa produtividade e falta de investimentos — como problemas que impedem o país de aumentar a participação no comércio internacional, estagnada há décadas. Para os especialistas, se 2019 chegar sem o encaminhamento de reformas estruturais, os problemas continuarão os mesmos e o país permanecerá à margem dos grandes fluxos globais de comércio, apesar de figurar entre as dez maiores economias do mundo.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembra que, na década de 1980, a fatia das exportações brasileiras no ranking global era de 0,9%, maior do que a da China (0,88%), que hoje detém quase 14% do comércio mundial, enquanto o país continua com o pequeno naco de 1%. “O Brasil precisa resolver muita coisa internamente e, enquanto os problemas estruturais não forem solucionados, o custo logístico não cair e a burocracia continuar travando os avanços da economia, continuaremos pouco competitivos no mercado externo”, avisa.

Infraestrutura

Lia Valls, especialista em comércio internacional e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), afirma que a participação do país no comércio global é pequena porque a pauta de exportação é muito dependente de produtos básicos. Commodities agrícolas, como a soja, e minerais, como minério de ferro, são responsáveis por mais de 50% das vendas externas do Brasil, que não consegue exportar manufaturados para países fora da América Latina devido à enorme falta de competitividade em distâncias mais longas. “Para tornar a pauta mais diversificada, com produtos de maior valor agregado, o país precisa, primeiro, de equilíbrio macroeconômico. Somente depois disso, o comércio exterior poderá ajudar no crescimento”, destaca.

Para o economista-chefe da Rio Bravo, Evandro Buccini, a falta de planejamento de longo prazo de sucessivos governos prejudicou a inserção do Brasil no cenário internacional, no qual um país com baixo investimento em logística raramente consegue avançar. “A infraestrutura de estradas, portos e aeroportos precisa melhorar. É preciso acelerar a agenda de concessões, de privatizações e de parcerias público-privadas (PPPs) para diminuir o peso do Estado nesses setores e deixar quem pode investir”, afirma. Ele destaca, ainda, que, para não continuar na lanterna de rankings de competitividade, o Brasil precisa aprimorar o ambiente de negócios.

Na avaliação de Buccini, o fato de o Brasil ser muito fechado é outro fator negativo. “A reserva de mercado deixa os produtos nacionais tecnologicamente defasados, é uma medida equivocada. Os empresários mais modernos defendem maior abertura comercial”, pontua. Ele frisa também que o Brasil fez opções equivocadas e continua escolhendo parceiros errados, além de apostar todas as fichas no acordo da União Europeia com o Mercosul, que vem sendo negociado há mais de 20 anos, sem muito sucesso.

“O país precisa fechar mais acordos bilaterais com economias estratégicas para alavancar o comércio exterior. Somos muito fechados e, por isso, temos baixa produtividade”, lamenta Buccini. “O Brasil precisa mudar o relacionamento com o resto do mundo. Muitos burocratas e empresários acham que o mercado interno é suficiente. Só que, se a economia fosse mais aberta ao resto do mundo, o país teria muito mais a ganhar do que a perder”, salienta. “Para exportar, é preciso importar, tanto que os maiores exportadores do mundo são também os maiores importadores.”

Para Arturo Bris, professor de finanças e diretor do Centro Mundial de Competitividade da escola suíça de negócios IMD, a participação brasileira no comércio global é pequena porque o país está mais focado no mercado interno do que no externo. “Para competir em uma economia global, o Brasil precisa de especialização, produtos e serviços de valor agregado e políticas que apoiem uma economia exportadora”, destaca. “O Brasil é um parceiro comercial desejável para qualquer grande economia. A abertura e o comércio serão a chave para a competitividade do país nas próximas décadas”, completa. Ele lembra também que a corrupção é um problema grave, mesmo para investidores e clientes estrangeiros. “Somente quando mostrar um setor público limpo, um Estado de direito confiável e transparência nas instituições governamentais, o país poderá competir”, alerta.


Eleições e incerteza

Com a aproximação da corrida presidencial de 2018, analistas evitam fazer projeções para o comércio exterior do país em 2019. “Teoricamente, vamos ter superavit comercial. Mas, até lá, haverá muitas incertezas no caminho. Além das dúvidas sobre o novo governo, não sabemos como será o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tomará alguma decisão em relação à China que possa afetar o Brasil, e ainda não sabemos como estará o preço do petróleo. Tudo isso afetará o cenário externo e não temos como prever nada agora”, avisa Castro.

Lia Valls também evita fazer previsões além de 2018 e recorda que, quando um país consegue exportar produtos manufaturados, os contratos são mais longos, o que garante maior estabilidade nas vendas externas. “A única certeza é que o superavit comercial será menor que o do ano que vem e a importação vai voltar a crescer. Agora, o crescimento das exportações vai depender do mercado de commodities”, avisa. “Como a pauta exportadora nacional depende das commodities e há risco de volatilidade de preços no mercado internacional, a balança comercial fica vulnerável.”

Outra preocupação dos especialistas é o fato de o governo apostar muitas fichas apenas na China para garantir investimentos no país e alavancar as concessões na área de infraestrutura. Conforme dados do Banco Central, o volume de investimentos do país asiático no Brasil ainda é pequeno se comparado ao dos Estados Unidos, que lideram o ranking . Os investimentos chineses somam pouco mais de US$ 500 milhões, menos de 10% dos R$ 10 bilhões norte-americanos computados até outubro.

Parceiros

A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, lembra que, apesar de o investimento chinês ainda ser relativamente baixo, a China tem entrado em muitos fundos norte-americanos que aplicam no país. “Hoje o grosso do dinheiro é chinês. E não devemos esquecer que a China é um grande investidor em infraestrutura e tem interesse nas concessões brasileiras”, diz.
Para Arturo Bris, do IMD, “o Brasil não deve se concentrar em um único parceiro comercial. O país é atraente para a Europa e os Estados Unidos também. Os chineses devem dominar a tendência global na era Trump por causa do retorno dos EUA ao protecionismo. Mas isso não significa que o Brasil deva colocar todos os ovos só em uma cesta”, orienta.